Alterações maiores ocorreram no entretenimento. População está mais cuidadosa e espera o fim do julgamento para voltar à normalidade

Santa Maria, cidade que não quer mais ser lembrada como 'aquela da tragédia'

Santa Maria, cidade que não quer mais ser lembrada como 'aquela da tragédia'

GABRIEL HAESBAERT

Um município importante, com bons índices de qualidade de vida, uma das melhores universidades federais do Brasil, um comércio pujante e regiões atraentes para o turismo. Décima primeira economia e sexta população de seu estado. Uma população, diga-se, cansada de continuar a ser identificada como a da “cidade da tragédia”. E ansiosa para ver a conclusão de um grande julgamento estabelecer finalmente a justiça e abrir caminho para que a vida siga em frente, ao menos sem os exageros trazidos pelo rótulo.

A descrição resume o estágio atual dos 300 mil habitantes de Santa Maria, cidade da região central do Rio Grande do Sul distante 290 quilômetros de Porto Alegre, capital do estado, às vésperas de serem completados nove anos do incêndio da boate Kiss, em 27 de janeiro de 2013, com saldo de 242 mortos e mais de 600 feridos.

O julgamento, iniciado em Porto Alegre na quarta-feira (1º), deverá se tornar o maior da história do Rio Grande do Sul e um dos mais longos do país. Quatro envolvidos estão no banco dos réus: o hoje DJ Luciano Augusto Bonilha Leão, ex-auxiliar da banda Gurizada Fandangueira que comprou o sinalizador usado no palco; o vocalista Marcelo Jesus dos Santos, que acendeu o artefato no show; e os dois sócios da Kiss, Elissandro Callegaro Spohr, o Kiko, e Mauro Londero Hoffmann.

Mas que Santa Maria voltou à luz, ao sair do túnel daquela madrugada de domingo, e caminhou até os dias de hoje? O R7 ouviu moradores, parentes dos envolvidos, empresários e autoridades locais para identificar as mudanças ocorridas na cidade gaúcha e o aprendizado deixado por uma das maiores e mais dolorosas tragédias da história do país.

A primeira grande mudança é percebida logo nas primeiras horas de visita: apesar da diluição de parte da cautela pelo tempo, os santa-marienses são hoje concretamente mais cuidadosos em sua rotina. A preocupação aparece, sobretudo, nos setores de entretenimento, lazer e turismo, todos diretamente relacionados a uma tragédia ocorrida em uma casa de shows lotada.

Pelo menos seis boates e casas de música importantes foram fechadas após a tragédia – e nessa conta não estão incluídos alguns bares tradicionais. Entre elas, um dos espaços preferidos dos universitários da cidade, mantido historicamente pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), retirado de cena por condições precárias de segurança.

Os locais não resistiram a duas situações geradas pelo incêndio: a diminuição do público, assustado sobretudo nos primeiros anos, e o maior rigor da prefeitura, da fiscalização, do Corpo de Bombeiros e de outros setores do poder público na exigência de melhorias para liberar alvarás de funcionamento. Em muitos casos, os custos das reformas inviabilizaram a continuidade dos negócios.