Estrada que passa por trás das comunidades ribeirinhas é utilizada para escoar produção em Porto Velho — Foto: Ruan Gabriel/Rede Amazônica
1 de 3 Estrada que passa por trás das comunidades ribeirinhas é utilizada para escoar produção em Porto Velho — Foto: Ruan Gabriel/Rede Amazônica

Estrada que passa por trás das comunidades ribeirinhas é utilizada para escoar produção em Porto Velho — Foto: Ruan Gabriel/Rede Amazônica

É preciso enfrentar duas etapas para chegar nas zonas ribeirinhas de Porto Velho: um trajeto por terra seguido de um trecho pelo rio Madeira. Com as estradas em péssimas condições de trafegabilidade e dificuldade de comunicação por falta de energia, sinal de telefone e internet, esse caminho leva os ribeirinhos à invisibilidade social.

Um dos principais pontos afetados pela inacessibilidade é o desenvolvimento das comunidades, já que os produtores rurais-ribeirinhos enfrentam dificuldades para fazer com que as mercadorias cheguem na zona urbana.

"Aqui no Médio Madeira tem muita produção de banana. Algumas produções vão direto para a cidade para abastecer os mercados. Os agricultores têm os contratos e tem que entregar tudo direitinho", aponta Severino Nobre, líder comunitário no Médio Madeira.

Ribeirinhos vivem da produção de banana no Médio Madeira — Foto: Jaíne Quele Cruz/g1

Os ribeirinhos da região do Médio Madeira utilizam a linha C-01, que passa por trás das comunidades e os levam até a BR-319, tanto para escoar produção, quanto para deslocamento próprio.

"Tá com sete anos, mais ou menos, que o povo não coloca nem cascalho nessa estrada. Quando é época de inverno fica intrafegável, cheia de buraco. Na época do verão tem o caminhão da produção que vai buscar a mercadoria, mas agora não entra, só se barco mesmo [para fazer o transporte]. E é bem difícil", comenta Ozenito de Souza, presidente da comunidade de São Miguel.

Por terra ou por rio, as dificuldades para escoar as produções são enormes. O que põe em risco as mercadorias e os próprios produtores, como demonstra o seguinte diálogo com Severino Nobre:

"Com a estrada boa, em uma hora [a produção] está lá nos mercados, nas feiras, para atender a população", ele destaca.

"E pelo rio?", é perguntado pelo g1.

"Ah, pelo rio é quase um dia. Se estiver dando vento, banzeirando [rio agitado], como é que vai cruzar? Às vezes a gente espera o dia todinho pro rio baixar pra cruzar. Chegar lá [do outro lado do rio] o barranco tá liso pra subir, não tem como. Aí tem que esperar enxugar o barranco pra subir na costa e botar [a mercadoria] nos caminhões. Põe em risco a produção e a qualidade de vida do produtor. Ele fica todo arrebentado", relata.

Comunidade ribeirinha às margens do rio Madeira, em Porto Velho — Foto: Jaíne Quele Cruz/g1

Praticamente isolados

As comunidades ribeirinhas de Porto Velho vivem praticamente isoladas, mas não por conta da distância até a cidade. É que além das condições das estradas, sem sinal de telefone ou internet, por exemplo, entrar em contato com alguém em caso de emergência é inviável.

O acesso a energia elétrica também é precário. Das 52 comunidades que existem no Médio e Baixo Madeira, apenas 30 possuem algum ponto de energia, de acordo com informações da Energisa, empresa responsável pela distribuição de energia elétrica em Rondônia.

"A gente fica mais sem energia do que com energia, porque a rede não tem manutenção. Os próprios moradores, às vezes, arriscando a vida, dão um jeito de limpar a rede, mesmo assim não conseguimos ficar diretamente com energia", comenta Severino.
"Quase todo dia falta energia na nossa comunidade. Muitas vezes a gente tem que se virar pra fazer a ligação e poder ter energia, senão a gente passa dias sem", complementa Ozenito.

A comunidade de Cavalcante foi fundada pouco depois da cheia histórica do rio Madeira em 2014, próximo ao distrito de São Carlos. De acordo com a pesquisadora Eva da Silva Alves, na comunidade vivem cerca de 200 famílias e elas nunca tiveram acesso a energia elétrica.

O que dizem os responsáveis?

A Energisa informou ao g1 que está prevista para este ano a segunda etapa do Programa Mais Luz para Amazônia, "no qual pretende-se realizar a ligação de 85 unidades consumidoras na comunidade Cavalcante".

A Prefeitura de Porto Velho informou que as comunidades foram contempladas com placa solar, mas não informou quais são elas. O Município também alega que disponibiliza pontos gratuitos de internet nas Escolas Sedes Administrativas e Unidades de Saúde.

Sobre as estradas, o Departamento Estadual de Estradas de Rodagem e Transportes (DER) foi questionado pelo g1, mas não apresentou resposta até a última atualização desta reportagem.