Celeste Fishbein era babá e trabalhava em um kibutz – pequena comunidade rural - quando se separou dos familiares, após o início dos bombardeios. Família passou 20 horas presa num bunker para escapar das bombas na região e acha que a jovem foi capturada por extremistas.

Por Rodrigo Rodrigues, Cléber Candido, g1 SP e TV Globo

Celeste Fishbein era babá e trabalhava em um kibutz perto da Faixa de Gaza. Ela desapareceu neste sábado (7), após o início dos bombardeios do Hamas contra Israel. — Foto: Reprodução/Ahmed Zakout/AFP
1 de 15 Celeste Fishbein era babá e trabalhava em um kibutz perto da Faixa de Gaza. Ela desapareceu neste sábado (7), após o início dos bombardeios do Hamas contra Israel. — Foto: Reprodução/Ahmed Zakout/AFP

Celeste Fishbein era babá e trabalhava em um kibutz perto da Faixa de Gaza. Ela desapareceu neste sábado (7), após o início dos bombardeios do Hamas contra Israel. — Foto: Reprodução/Ahmed Zakout/AFP

Uma jovem de 18 anos, filha de uma família de judeus brasileiros que vive em Israel, é uma das centenas de desaparecidos no conflito atual entre israelenses e palestinos, iniciado após o ataque do grupo extremista Hamas deste sábado (7).

Celeste Fishbein era babá e trabalhava em um kibutz – pequena comunidade rural – perto da Faixa de Gaza. Ela deixou de dar notícias desde a manhã de sábado (7) e estava com o namorado.

A família acredita que ela pode ter sido capturada por extremistas junto com o companheiro e ter sido levada como refém para uma área de controle palestino na região, como tem acontecido com outros adolescentes.

A jovem israelense tem mãe e avó brasileiras, nascidas em Guaratinguetá, no interior de São Paulo. Elas viviam também num outro kibutz na região de Gaza, depois de terem saído do Bom Retiro, em São Paulo, rumo ao Estado de Israel.

Celeste Fishbein ao lado da mãe e da avó brasileiras, Sarah Fishbein – 94 anos – e Gladys Fishbein. — Foto: Acervo pessoal

A família Fishbein perdeu contato depois do início dos ataques terroristas, que obrigaram todos os moradores das comunidades rurais a se abrigarem dentro de bunkers de proteção, espécie de abrigo antibombas.

Mario Ricardo Fishbein, que é tio de Celeste, conta que a mãe dele e a irmã viveram momentos de terror nas últimas horas.

“Depois do início dos ataques, por volta das 6h30 da manhã de sábado, minha mãe de 94 anos e minha irmã se abrigaram num bunker sem luz, sem comida e sem condições mínimas de conforto. A todo o momento os terroristas forçavam as portas para entrar. Foram mais de 20 horas de medo e terror”, contou.

“Elas foram resgatadas pelo exército israelense e agora estão seguras, na casa de nossos familiares. Mas a Celeste ficou com o namorado em Gaza. Eles deixaram de responder as mensagem de celular ontem às 11 horas. E ninguém tem mais notícias”, disse o tio.

Foto de Celeste Fishbein, distribuída pela família após o desaparecimento da jovem na Faixa de Gaza. — Foto: Reprodução

Angústia familiar

Integrante do Conselho de Cidadãos Brasileiros em Israel, Mario Fishbein tem 67 anos e trabalha como guia turístico em Israel. Foi responsável pela visita de vários brasileiros ao país e disse que está chocado com a violência que se abateu sobre o lugar onde vive há 52 anos.

“Nós que vivemos em Israel estamos acostumados com conflitos. Mas esse ataque deixou todo mundo chocado. São mais de 600 mortos já e os relatos que chegam das ações terroristas são muito assustadores”, contou.

“Jamais pensei que viveria essa violência e angústia dentro da minha família, depois de 52 anos morando em Israel. É uma dor imensa não saber se vamos encontrar ou não a Celeste com vida. Ela é uma menina doce, trabalhadora, carinhosa e humilde. Peço ajuda de toda a comunidade no Brasil e em Israel pra tentarmos encontrá-la com vida”, desabafou Mario Fishbein.

Para encontrar Celeste, a família tem buscado todas as formas de comunicação oficial e extra-oficial em Gaza. Enquanto aguardam notícias, os familiares da jovem se apegam na fé e na proximidade com a comunidade brasileira, para aliviar a dor da espera por informações que possam dar conta do paradeiro da jovem.

"Só Deus tem nos amparado e as palavras de conforto que temos recebido de muitos amigos que deixamos no Brasil. É maravilhoso o carinho que temos recebidos de tantos brasileiros. É um laço que não tem preço nesse momento tão ruim da nossa família", disse o tio.

Segundo dia de conflito

conflito entre Israel e o Hamas entrou no segundo dia neste domingo (8). O último balanço das autoridades indica que ao menos 977 pessoas morreram, sendo 600 em Israel, 370 na Faixa de Gaza e 7 na Cisjordânia. Há milhares de pessoas feridas.

Imagens mostram novos bombardeios na Faixa de Gaza

Imagens mostram novos bombardeios na Faixa de Gaza

Novas explosões foram reportadas na Faixa de Gaza durante a madrugada deste domingo, pelo horário local, e foram se intensificando ao amanhecer. Assista no vídeo acima.

Além disso, de acordo com a agência Reuters, militares israelenses afirmaram que ataques foram feitos contra o norte de Israel a partir do Líbano. Segundo o governo israelense, o Hamas ainda levou mais de 100 reféns para Gaza, incluindo mulheres e crianças.

Esses novos bombardeios foram reivindicados pelo grupo armado Hezbollah, que afirmou ter disparado foguetes em "solidariedade" ao povo palestino.

Os alvos, segundo o próprio Hezbollah, seriam três posições militares israelenses em uma região conhecida como Fazendas de Shebaa, que está em um território ocupado por Israel desde 1967. Essa área é reivindicada pelo Líbano.

Ainda no sábado (7), o Hezbollah anunciou apoio ao ataque promovido pelo Hamas contra Israel, afirmando estar em contato direto com líderes de grupos de resistência.

As forças armadas de Israel disseram que revidaram o ataque do Hezbollah e que um drone atingiu um posto do grupo na região da fronteira com o Líbano.

Além disso, as forças israelenses também afirmaram que continuam executando uma operação em oito áreas que ficam nos arredores da Faixa de Gaza, no sul do país. Um complexo, que seria usado pela inteligência do Hamas, foi bombardeado em Gaza.

Por sua vez, o Hamas divulgou um comunicado dizendo que seus integrantes continuam engajados em "lutas ferozes" dentro de Israel.

O Gabinete de Segurança de Israel emitiu uma declaração oficial de guerra contra o Hamas neste domingo. A medida oficializa o que já havia sido anunciado por Netanyahu e permite que o governo mobilize mais reservistas e intensifique a resposta militar ao conflito.

Um menino carrega um livro enquanto palestinos inspecionam uma mesquita destruída pelos ataque — Foto: Reuters

O conflito

O conflito entre Israel e Hamas começou após o grupo radical lançar um ataque-surpresa contra o território israelita no sábado, a partir de Gaza.

Esse é considerado um dos maiores ataques que Israel sofreu nos últimos anos. Diante da ofensiva do Hamas, os israelenses declararam estado de guerra.

"Estamos em guerra e vamos ganhar", disse o primeiro-ministro do Israel, Benjamin Netanyahu. "O nosso inimigo pagará um preço que nunca conheceu."

Ainda durante o sábado, Israel fez bombardeios contra a Faixa de Gaza como resposta. Segundo as forças israelenses, os alvos são lugares ligados ao Hamas.

Por volta das 2h, pelo horário de Brasília, o Ministério da Saúde de Israel divulgou um novo balanço afirmando que 1.864 pessoas ficaram feridas no país, por causa do conflito. Entre as vítimas, 326 estão em estado grave.

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Infográfico explica início do conflito em Israel — Foto: Arte/g1

O que aconteceu até agora

No sábado (7), lideranças do Hamas anunciaram que estavam iniciando uma grande operação de retomada de território. Um alto comandante do grupo chegou a dizer que mais de 5 mil foguetes tinham sido lançados contra Israel a partir da Faixa de Gaza.

Sirenes foram ouvidas em várias partes de Israel, incluindo grandes cidades, como Tel Aviv e Jerusalém. Os ataques atingiram prédios e veículos, causando estragos em diversas regiões do país.

Pela terra e pelo mar, homens armados do Hamas invadiram o território israelita na região sul do país. Agências internacionais relataram que esses homens atiraram contra pessoas que estavam nas ruas.

Também há relatos de dezenas de moradores israelenses sendo levados como reféns para a Faixa de Gaza.

Após a ofensiva, o primeiro-ministro israelense convocou uma reunião de emergência e lançou a operação "Espadas de Ferro", prometendo uma resposta ao Hamas.

O governo de Israel pediu para que os cidadãos sigam instruções de segurança. A recomendação é para que as pessoas fiquem próximas de espaços protegidos.

Israel também recebeu o apoio de autoridades dos Estados Unidos e da União Europeia. O presidente Joe Biden afirmou que os norte-americanos estão prontos para oferecer "todos os meios apropriados de apoio".

Homem corre após explosão provocada por foguete lançado da Faixa de Gaza, em Israel, em 7 de outubro de 2023 — Foto: REUTERS/Amir Cohen

Entenda o conflito

O conflito entre Israel e Palestina se estende há décadas. Em sua forma moderna, remonta a 1947, quando as Nações Unidas propuseram a criação de dois Estados, um judeu e um árabe, na Palestina, sob mandato britânico.

Israel foi reconhecido como país no ano seguinte. Desde então, há uma disputa por território, e vários acordos já tentaram estabelecer a paz na região, mas sem sucesso.

Palestinos assumem o controle de tanque israelense depois de cruzar a fronteira de Israel com Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, em 7 de outubro de 2023. — Foto: Said Khatib/AFP

O que é o Hamas?

O Hamas é o maior dentre diversos grupos de militantes islâmicos da Palestina. O grupo é classificado como terrorista por Israel, Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, bem como outras potências globais.

O nome em árabe é um acrônimo para Movimento de Resistência Islâmica, que teve origem em 1987 após o início da primeira intifada palestina contra a ocupação israelense da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.

Em sua fundação, o Estatuto do Hamas definiu a Palestina histórica, incluindo o atual território de Israel, como terra islâmica e exclui qualquer paz permanente com o Estado judeu. O documento também ataca os judeus como povo, fortalecendo acusações de que o grupo é antissemita.

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Pessoas observam destruição na Faixa de Gaza após bombardeios israelenses em reação a ataque do Hamas no dia 7 de outubro de 2023 — Foto: Mohammed Abed/AFP

Fumaça é vista após ataques israelenses a Gaza no dia 7 de outubro de 2023 — Foto: Mohammed Salem/Reuters

Homens armados palestinos que se infiltraram em áreas do sul de Israel, no lado israelense de Israel-Gaza — Foto: Reuters

Palestinos comemoram enquanto viajam em um veículo militar israelense que foi apreendido — Foto: Reuters

Hamas afirmou que 5 mil foguetes foram lançados da Faixa de Gaza — Foto: REUTERS/Ibraheem Abu Mustafa

Soldados israelenses trabalham para proteger áreas residenciais após uma infiltração — Foto: Reuters

Palestinos reagem quando um veículo militar israelense pega fogo após ser atingido por homens armados palestinos que se infiltraram em áreas do sul de Israel, no lado israelense de Israel — Foto: Reuters

Prédio pega fogo após ser atingido por foguete em Tel Aviv, Israel, em 7 de outubro de 2023 — Foto: REUTERS/Itai Ron