Publicado em: 04/11/2023 às 21:30

Manaus (AM) – Nas primeiras horas da madrugada deste sábado (4), a poluição da fumaça que persiste em Manaus se tornou insuportável, invadindo as casas e tirando o sono dos moradores. Desde meados de setembro a população manauara sofre com os graves impactos sobre a saúde pública causados pela fumaça tóxica, potencializada pelas queimadas criminosas em todo o Amazonas. 

A qualidade do ar chegou a ser considerada perigosa para a saúde humana na parte da manhã quando marcou 440 ug/m3,  segundo o site do projeto Índice de Qualidade do Ar Mundial. O céu se tornou cinza. Nas ruas da cidade, as pessoas sentiram calor, dificuldade para respirar e dores na garganta e nos olhos. 

“Eu acordo de madrugada para vir para cá trabalhar e é muito ruim, porque você já acorda inalando a fumaça que prejudica principalmente os idosos e as crianças”, disse o pintor Francisco Silva, 44 anos, em entrevista à Amazônia Real. Francisco estava esperando ônibus em um ponto no bairro da Ponta Negra, zona oeste de Manaus, e relatou que tem filhos pequenos que não podem sair de casa porque ficam tossindo e “sentindo o cheiro forte dessa fumaça”.

O pintor saiu de casa às 4h30 da manhã para trabalhar, quando já estava enfumaçado. “Meus filhos (de 10 e 9 anos) estão com tosse, garganta inflamada e essa noite sentiram tudo isso. Um deles foi para o Pronto-Socorro da Criança com os sintomas de doenças causadas pela fumaça”, afirmou.

A primeira onda intensa de fumaça que sufoca a cidade de Manaus aconteceu no começo de outubro e adoece a população não só com doenças respiratórias, mas também com problemas nos olhos, na pele e até com doenças cardiovasculares e neurológicas, especialmente em grupos etários mais vulneráveis, como crianças e idosos. De acordo com o epidemiologista da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, os efeitos da fumaça,são associados a problemas respiratórios como obstrução nasal, coriza, sangramento nasal, tosse seca, rouquidão, laringite, rinite, falta de ar e cansaço.  

A poluição excessiva também pode resultar em problemas nos olhos, como irritação, vermelhidão, lacrimejamento, visão borrada e até mesmo conjuntivite tóxica/química ou outros problemas oftalmológicos. “A exposição persistente à fumaça de queimadas pode complicar ou atuar como gatilho em doenças pré-existentes como asma, rinite, bronquite, pneumonia, doenças cardiovasculares e neurológicas, além de gerar perturbações no ciclo do sono ou ser associada a doenças cardiovasculares e neurológicas, especialmente em grupos etários mais vulneráveis como crianças, gestantes e idosos”, explica Orellana.

Nayara Ferreira, 33 anos, foi entrevistada pela reportagem enquanto estava na orla da praia da Ponta Negra. A autônoma, que mora no município de Rio Preto da Eva, a 50 quilômetros de Manaus, disse sentir muita dor no peito e dificuldades para respirar desde que a fumaça começou a aparecer ainda em setembro. Seu problema foi agravado pela fumaça densa deste fim de semana.

“Lá em Rio Preto da Eva já estamos sentindo o impacto das fumaças também desde setembro, não tem um dia só que a gente não sinta o cheiro de fumaça. Hoje aqui em Manaus está pior, minha irmã mora no bairro Planalto e está muito ruim de respirar mesmo, os meus pais são idosos e sofrem com isso”, relatou. 

A trabalhadora doméstica Marineuza Silva, 43 anos, trabalha na Ponta Negra e precisa usar o transporte público todos os dias. Ela já sofre com os efeitos da fumaça e do calor extremo. “Amanhece o dia com essa fumaça e poluição, ainda tem o sol quente e é muito ruim. Queria que Deus mandasse uma chuva para melhorar”, lamenta.

Em casa, pessoas da sua família ficaram doentes com sintomas de gripe e tosse e ela acredita que isso seja causado pela fumaça. Marineuza afirma que de manhã cedo o “fumaceiro” é pior ainda, pois não se vê nada. “Não consigo nem usar máscara porque fica pior, fico ainda mais sufocada”, disse.

Com o problema, muitas pessoas voltaram a usar máscaras para sair de casa na manhã de sábado. Nas ruas do centro de Manaus, o estudante de Direito da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Luivan Rodrigues dos Santos, 19 anos, relatou que está doente por conta da fumaça das queimadas, que agravam seus problemas respiratórios. 

“Infelizmente eu ainda vejo que muitas pessoas não têm consciência da gravidade do impacto dessa poluição. Ela é nociva à saúde, especialmente daquelas pessoas que têm comorbidades respiratórias, como é o meu caso. Eu enfrento alguns desses problemas e sinto na pele o impacto da fumaça”, alertou.

A feirante Lorena Silva, de 37 anos, trabalha na região da praça da Matriz, no centro, e afirma que com a fumaça as coisas pioraram até financeiramente. “Além de afetar a nossa saúde, afetou também a parte financeira de todo mundo. Muitas pessoas que trabalham com frutas e verduras estão prejudicadas.” Ela chegou de manhã no centro para trabalhar. Lorena está gripada e tossindo, ela acredita que seja por conta da fumaça.

Edmilson Farias, 69 anos, motorista de um ônibus que trabalha com turistas na parte central, afirma que as pessoas não estão indo fazer o passeio porque a fumaça está incomodando. Ele já teve que cancelar uma viagem no sábado retrasado, porque “não tinha condições”. “O ônibus fica aberto lá em cima e o pessoal não aguenta a fumaça”, disse.

Edmilson afirma sentir falta de ar  e seus olhos e garganta ardem. “Hoje eu senti o cheiro de fumaça muito forte quando abri as janelas de casa lá no Lírio do Vale, onde eu moro. Encheu de fumaça a minha casa.”

Nas redes sociais, mais uma vez os manauaras denunciavam o desespero vivido dentro das casas. O cheiro forte de fumaça entrava mesmo com as janelas fechadas e causou incômodo, levando a manifestações. De outras cidades próximas a Manaus, vídeos e fotos do céu encoberto pela fumaça também foram publicados.

“Aqui também está encoberto pela fumaça, e também é uma cidade muito afetada pela estiagem”, escreveu uma usuária de Silves, no interior Amazonas.