“Acho que como nortista, mulher e artista sempre vivo um questionamento interno se o que faço é realmente relevante. Ter essas duas fotografias selecionadas, pra mim é imenso, não como validação, pelo contrário, e sim como um impulso em continuar a fazer o que me move”, comenta Khauane.

Ela deve participar da exposição com duas fotografias: a primeira retrata a bailarina da praça, uma personagem diretamente ligada à cultura de Rondônia. Artista de rua, a bailarina é conhecida por fazer apresentações de dança e teatro na praça Marechal Rondon (Praça do Baú), em Porto Velho.

Bailarina da Praça — Foto: Khauane Farias

“A foto da bailarina foi feita pelo acaso, foi como conhecer alguém que só existia na minha imaginação. Um certo dia eu estava em Porto Velho, quando uma mulher se aproximou. Eu me encantei pelas roupas e a leveza dela. Saí correndo atrás dela, me apresentei e pedi pra fazer um retrato. A fotografia já existia, mas naquele momento ela se concretizou através da minha lente. A bailarina é um dos rostos da Amazônia negra”, relembra a artista.

A segunda fotografia, feita às margens do rio Machado no dia de Iemanjá, faz parte de uma série: Odoyá, todo coração é mar.

Odoyá, todo coração é mar. — Foto: Khauane Farias

“Na época da seca, às margens dos rios de Ji-Paraná formam ilhas, os movimentos das águas tornam tudo mais suave, era dia de Iemanjá, fomos fazer nossas preces e fotografar. Cada retrato é cheio de significado, acho que essa é a mágica da fotografia: um único instante se torna eterno. Penso que a fotografia é como uma oração, tudo que não cabe em palavras se transformam e traduzem emoções.

O outro rondoniense selecionado para participar da exposição é Rodrigo Casteleira, artista e professor da Universidade Federal de Rondônia (Unir). Sua obra é uma vídeo performance que carrega uma mensagem sobre ancestralidade e regionalidade.

“Foi um modo de materializar, estética e poeticamente, tanto meus trânsitos pelos territórios por Rondônia, como um modo de ficcionar reposicionamentos sobre minhas ancestralidades vinda de lugares outros. Ao mesmo tempo, intento recontar saberes locais, como o caso do cemitério indígena, em Vilhena [cidade de RO], onde resido, que foi apagado pela plantação e pela noção de políticas do esquecimento”, aponta.

ORIE-ENTE - vídeo performance — Foto: Rodrigo Casteleira

Segundo Rodrigo, um nortista ter uma obra escolhida para uma exposição internacional do porte da Bienal acende um debate sobre a valorização dos artistas que vivem nessas regiões.

“Penso que um trabalho desde o Norte, selecionado pela Bienal Black, gera potências para que a territorialidade nortista seja observada também como produtora de arte contemporânea ao mesmo tempo em que é também um modo de provocar as demais regiões brasleiras a pensar sobre como nós, artistas alocadas(os) aqui, nem sempre podemos pleitear diversas chamadas por ausência de recursos ou mesmo, quando existem, não cobrem nem nossos translados”, comentou.