O acidente ocorreu na Avenida Salim Farah Maluf, na Zona Leste, e foi gravado por câmeras de segurança (veja vídeo abaixo).

O Porsche azul 911 Carrera GTS, ano 2023, que era guiado por Fernando, está avaliado em R$ 1,3 milhão pela tabela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). O veículo pode atingir mais de 300 km/h e leva cerca de 3 segundos para ir de 0 km/h a 100 km/h.

O automóvel de luxo ficou parcialmente destruído no acidente e não tem seguro. Ele pertence à empresa da família do motorista, a F. Andrade, de propriedade de seu pai, Fernando Sastre de Andrade. Ela atua no comércio de materiais para construção, segundo a Receita Federal. A empresa distribui ferro e aço para a construção civil.

Vídeo mostra momento da batida de Porsche em carro de motorista de aplicativo

O Renault Sandero branco EXP, ano 2017, guiado por Ornaldo, custava em torno de R$ 40 mil. Ele chegou a ser socorrido por uma ambulância dos Bombeiros, mas não resistiu e morreu no Hospital Municipal do Tatuapé. Tinha 52 anos e dirigia o veículo sozinho. Seu automóvel teve a traseira completamente destruída depois de ter sido atingido pelo Porsche.

Fernando tem seu nome citado no quadro de sócios de uma das empresas da sua família, a incorporadora Sastre Empreendimentos Imobiliários. Ele também aparece como único sócio da FF Andrade Serviços Administrativos.

Há cinco anos, Fernando foi aprovado em uma universidade privada da capital paulista, o Mackenzie, onde cursou engenharia civil por algum tempo. Segundo a instituição de ensino, ele não está matriculado lá desde 2021.

Motorista de Porsche que matou motorista de aplicativo se apresenta à polícia

Motorista de Porsche que matou motorista de aplicativo se apresenta à polícia

Fuga do local do acidente

De acordo com a polícia, Fernando fugiu sem fazer o teste do bafômetro e dar sua versão para o acidente. Ele só apareceu depois de 36 horas. Compareceu no 30º Distrito Policial (DP), Tatuapé, acompanhado da mãe, Daniela Cristina de Medeiros Andrade, e de advogados.

No depoimento, Fernando não soube responder aos policiais qual era a velocidade que o Porsche estava no momento do acidente. Falou que "estava um pouco acima do limite permitido, porém, não chegava ser muito acima também".

Mas um casal que estava em outro veículo, um Hyundiai HB20, o Porsche azul, dirigido pelo empresário, o ultrapassou em alta velocidade, depois perdeu o controle, batendo no Renault Sandero branco, guiado por Ornaldo. O homem e a mulher deverão ser ouvidos novamente pela polícia.

A Polícia Técnico-Científica vai analisar as imagens para determinar qual era a velocidade do Porsche no momento da batida com o Sandero. O laudo pericial irá informar se o carro de luxo estava em velocidade acima do limite para o trecho.

A delegacia que investiga o caso chegou a pedir à Justiça a prisão temporária do motorista do Porsche, mas a solicitação foi negada. No pedido feito ao juiz, a polícia alegava que Fernando fugiu do local do acidente e estava em alta velocidade e que precisaria ser preso porque a sociedade pedia sua prisão. Mas a Justiça negou o pedido argumentando que o motorista já havia se apresentado na delegacia e dado depoimento.

Motorista de Porsche que matou condutor de Sandero e fugiu se apresenta em delegacia de SP

Motorista de Porsche que matou condutor de Sandero e fugiu se apresenta em delegacia de SP

Indiciamento em três crimes

A defesa dele, feita por um escritório particular de advocacia, divulgou nota à imprensa informando que seu cliente não bebeu e que o acidente foi uma "fatalidade".

Em seu interrogatório na delegacia, o empresário contou aos policiais que chegou com um amigo, de 22 anos, por volta das 23h de sábado a um clube de pôquer na Rua Marechal Barbacena, no Tatuapé. Disse ainda que seu amigo ingeriu bebida alcoólica, mas não estava dirigindo. Depois falou que ele e o colega ficaram no local até 2h de domingo. Em seguida, foram embora.

No trajeto para levar o amigo para a casa dele, Fernando relatou que trafegava com seu Porsche pela Avenida Salim Farah Maluf, no sentido à Radial Leste, quando "viu a luz de freio de um veículo à frente acender e ao tentar desviar", colidiu com ele.

Câmeras gravaram colisão

Câmera de segurança gravou momento que Renault Sandero branco é atingido na traseira por Porsche Carrera azul em São Paulo — Foto: Reprodução/Redes sociais

Pelas imagens, é possível ver quando Fernando acelera o carro de luxo e bate na traseira do veículo de Orlando, que havia pisado nos freios e desacelerado. O Porsche ergue o Sandero, que é arremessado até a calçada. O veículo do motorista por aplicativo ainda bate num poste de iluminação.

Ainda, segundo o motorista do carro de luxo, ele "apagou", perdeu os sentidos e desmaiou após a batida, não se recordando do que aconteceu.

Fernando Sastre Filho responderá pela morte de Ornaldo Viana — Foto: Reprodução/Redes sociais

Além de negar que tenha consumido bebida alcoólica, Fernando falou que não estava guiando sob efeito de drogas. Disse ainda que só recobrou a consciência depois que acordou deitado na avenida. Depois contou que viu seu tio e sua mãe no local.

O empresário também negou a versão da PM de que tenha fugido do local do acidente com a sua mãe. Disse que foi o "último a sair do local com sua mãe" e que seu amigo e Ornaldo já tinham "sido socorridos". O colega foi levado para o Hospital São Luiz do Tatuapé. Não há confirmação se ele teve alta médica. O rapaz também será ouvido na investigação.

Ainda segundo Fernando, pelo fato de "sentir muitas dores", os policiais militares autorizaram a mãe dele a levá-lo a um hospital para ser atendido. O motorista ainda alegou que não foi para uma unidade hospitalar porque sua mãe passou a receber "ameaças pelo celular", sem dizer quais foram elas.

Depoimento da mãe

Durante interrogatório, Daniela Cristina contou que, ao chegar ao local do acidente, perguntou a um policial se poderia socorrer o filho até um hospital. O agente teria concordado, enquanto outro PM pediu para aguardar, pois precisavam pegar a versão de Fernando sobre os fatos.

Então, a mãe do motorista da Porsche informou todos os dados deles, inclusive o número de celular. Em seguida, segundo o depoimento de Daniela, foram autorizados a deixar o local. Entretanto, diferentemente do que foi informado, eles não foram para o Hospital São Luiz.

Como a residência do empresário é próxima ao local do acidente, eles foram para lá. Em razão do estresse, Daniela disse que tomou um medicamento e acabou dormindo com o filho.

A mulher acordou somente por volta das 9h30, quando percebeu diversas mensagens ameaçadoras nas redes sociais e no WhatsApp sobre o filho. Por isso ela desistiu de ir ao hospital, de acordo com o seu relato.

Investigação da PM

Justiça nega prisão de motorista que dirigia carro de luxo e foi indiciado por 3 crimes

Justiça nega prisão de motorista que dirigia carro de luxo e foi indiciado por 3 crimes

Os policiais militares que atenderam a ocorrência contaram na delegacia que a mãe avisou que levaria Fernando ao Hospital São Luiz no Ibirapuera, na Zona Sul, porque o filho estaria ferido na boca.

Mas quando os agentes foram ao local para ouvir a versão do motorista do Porsche e fazer o teste do bafômetro, para saber se ele dirigia sob efeito de bebida alcóolica, não o encontraram. A mulher que o levou também não estava no local.

Diante disso, a Polícia Civil considerou que Fernando fugiu.

A Polícia Militar informou ainda que irá apurar se os policiais militares erraram ao permitir que Fernando deixasse o local do acidente com a sua mãe para ir supostamente a um hospital, o que não ocorreu. A Ouvidoria da Polícia pediu para a Corregedoria da PM apurar o caso e também quer saber se os agentes usavam câmeras corporais para pedir as imagens.

Policiais civis ouvidos pela reportagem disseram que os policiais militares demoraram quase cinco horas para comunicar o acidente com morte na delegacia. Segundo os agentes da Polícia Civil, os PMs deveriam ter feito o teste do bafômetro no local, em vez de procurar o motorista num hospital para fazer isso.

Foto postada por Luam Silva (à direita) o mostra ao lado do pai, Ornaldo Viana (à esquerda). Filho pediu 'justiça' para o caso do motorista de aplicativo morto após ter o carro atingido pelo Porsche dirigido por Fernando Sastre de Andrade Filho — Foto: Reprodução/Instagram

Ornaldo foi velado e sepultado na tarde desta segunda no Cemitério Bonsucesso, em Guarulhos, Grande São Paulo.

Traseira do Renault branco ficou destruída após ser atingida pelo Porsche azul — Foto: Rômulo D'Ávila/TV Globo