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- Author, Saeid Jafari
- Role, Analista político
- Author, Grace Tsoi
- Role, WSL Global Journalism
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Poucos dias antes da visita de grande importância do presidente da China, Xi Jinping, aos Estados Unidos, o governo chinês recebeu o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, em um um sinal da influência que exerce sobre o governo iraniano.
A guerra no Irã deve estar entre os principais assuntos da reunião entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e Xi nesta quinta-feira (24/9).
Desde o início do conflito, há sete meses, a China adota a mesma linha. O país condena os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã e as sanções americanas contra o país. Ao mesmo tempo, vem defendendo o fim da guerra e, sobretudo, a reabertura do estreito de Ormuz.
Até agora, a China tem conseguido absorver relativamente bem os efeitos da guerra, graças às suas grandes reservas de petróleo e à diversificação de suas fontes de energia.
O país pode suportar os efeitos da guerra por mais tempo, mas os custos econômicos tendem a crescer, afirma Andrea Ghiselli, especialista em relações entre China e Oriente Médio da Universidade de Exeter, no Reino Unido.
Mas segundo Ghiselli, o governo chinês terá de conciliar seu interesse no fim da guerra com outras prioridades geopolíticas.
"A China não quer que o conflito se transforme em um ponto de atrito nas relações com os EUA", mas também "não vai prejudicar os principais interesses e reivindicações do Irã", acrescenta Ghiselli.
"Irã e China estão, de modo geral, alinhados e consideram que as ações agressivas dos EUA e de Israel estão na origem do conflito e explicam por que ele continua", afirma o especialista.
Energia e economia
Como grande consumidora de energia, a China "sofre com a continuidade" da guerra, afirma Hamidreza Azizi, do International Crisis Group.
O petróleo responde por cerca de um quinto da energia consumida no país, mas mais de 70% desse petróleo é importado, segundo um relatório de 2025 da Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA, na sigla em inglês).
Em 2025, o Irã forneceu cerca de 1,4 milhões de barris de petróleo por dia à China, o equivalente a 12% das importações chinesas de petróleo bruto. Os demais países do Oriente Médio, juntos, responderam por 42% dessas importações.
A China conseguiu substituir parte do petróleo que deixou de receber do Irã e de outros produtores do Golfo por fornecimento da Rússia, do Brasil e de outros países exportadores. No entanto, substituir o gás adquirido na região seria consideravelmente mais difícil.

Crédito, Reuters
Os enormes estoques de petróleo da China têm ajudado o país a amortecer o impacto da guerra sobre seu abastecimento de energia. O tamanho das reservas é segredo de Estado, mas estimativas indicam que, em 2025, elas variavam entre 1 bilhão e 1,4 bilhão de barris.
"Se a China tinha cerca de 1,4 bilhão de barris armazenados quando a guerra começou, esse volume seria suficiente para cobrir 254 dias de importações do Oriente Médio, no ritmo de 2025", afirma Erica Downs, pesquisadora especializada no setor de energia da China na Universidade de Columbia, nos EUA.
Downs acrescenta que as reservas chinesas provavelmente durariam ainda mais porque, apesar da guerra, parte do petróleo importado do Oriente Médio continua chegando ao país.
No entanto, a China precisou recorrer a seus estoques de petróleo em três dos últimos quatro meses, inclusive em agosto, segundo Clyde Russell, colunista da agência de notícias Reuters, especializado em commodities na Ásia.
"O governo chinês provavelmente quer deixar de recorrer às reservas o quanto antes, para preservar uma margem de segurança considerável", afirma Downs, da Universidade de Columbia.
E, se os houthis, grupo militar e político do Iêmen apoiado pelo Irã, intensificarem os ataques contra a Arábia Saudita e ampliarem seu controle sobre o estreito de Bab al-Mandab, o mercado global de energia poderá ficar ainda mais instável.
Os problemas econômicos provocados pela guerra no Irã podem até desencadear uma crise econômica mundial, o que teria consequências negativas para a economia chinesa, fortemente dependente das exportações.
Desde 2019, o ritmo de crescimento da China vem diminuindo. A segunda maior economia do mundo enfrenta uma crise no setor imobiliário, tensões comerciais com o Ocidente e o aumento das dívidas dos governos locais.
Nesse cenário, as exportações líquidas responderam, no ano passado, por 32,7% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês, a maior proporção desde 1997, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), com sede em Washington D.C. Com o consumo interno ainda fraco, as exportações têm sido o principal motor do crescimento econômico.
Sanções, bloqueio naval e negociações
Com a guerra em um impasse, o governo Trump continua intensificando a pressão econômica sobre o Irã. Os EUA alertaram que empresas, bancos e países que ajudem a sustentar a economia iraniana podem ser alvo de sanções secundárias.
Até agora, o governo americano evitou impor sanções aos principais bancos chineses, embora já tenha sancionado várias empresas e outras entidades do país. Essa cautela ocorre em um momento em que as tensões comerciais entre EUA e China continuam elevadas.
O governo chinês não aceitou publicamente o pedido dos EUA para aderir à campanha de pressão financeira contra o Irã. A China afirma ser contrária a "sanções unilaterais ilegais" e diz que sua cooperação com o Irã respeita o direito internacional.

Crédito, Handout/Houthi Military Media Centre via EPA
A China provavelmente não deixará de comprar petróleo iraniano por causa da pressão dos EUA, afirma Azizi, do International Crisis Group. "Os chineses não querem abrir um precedente em que os EUA possam, por meio de pressão, obrigar empresas e bancos chineses a adotar suas políticas."
O bloqueio naval dos EUA, no entanto, reduziu drasticamente a capacidade do Irã de enviar petróleo aos compradores chineses.
Em março, o Irã exportava 2 milhões de barris de petróleo por dia. Em agosto, esse volume caiu para entre 220 mil e 255 mil barris diários. Desde que os EUA retomaram o bloqueio naval, em 14/7, nenhum carregamento de petróleo bruto iraniano conseguiu atravessar o estreito de Ormuz e chegar à China, segundo a Reuters.
O interesse da China em reduzir o impacto das sanções financeiras não significa necessariamente que o país tenha capacidade ou disposição para desafiar um bloqueio naval. Tentar romper o bloqueio poderia levar a China a um confronto de outra magnitude com os EUA. Não há sinais de que a liderança chinesa esteja disposta a arcar com esse custo.
A China deixou clara sua "preferência por um fim negociado para a guerra", afirma Ghiselli, da Universidade de Exeter, acrescentando que o país provavelmente tentará impedir que o Irã amplie o conflito.
"A China pode ajudar, e talvez ajude, a retomar as negociações. Pode até pressionar os iranianos a fazer algumas concessões que permitam ao presidente Trump reivindicar algum tipo de vitória e usar isso como justificativa para encerrar a guerra."
Mas, Ghiselli também acredita que a China pressionará para que qualquer acordo também traga ganhos concretos para o Irã, como o fim das sanções, o acesso a recursos financeiros congelados e a suspensão dos ataques militares.








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