27/10/2023 - O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, participa de um evento para distribuição de armas em Ashkelon — Foto: REUTERS/Violeta Santos Moura
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27/10/2023 - O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, participa de um evento para distribuição de armas em Ashkelon — Foto: REUTERS/Violeta Santos Moura

Existe uma enorme distância entre os israelenses que bradam, incessantemente e em desespero, pela volta de parentes e amigos que foram feitos reféns pelo Hamas e os que tiram proveito do confronto para içar suas bandeiras extremistas. Na ala radical estão os ministros ultranacionalistas que sustentam a coalizão do premiê Netanyahu e líderes de colonos, estimulando a distribuição de armas à população e a formação de esquadrões comunitários.

Os jornais israelenses trazem dados alarmantes. Mais de 236 mil pessoas solicitaram licenças de porte de armas desde o massacre perpetrado pelo grupo palestino em Israel. O número equivale ao total de pedidos feitos no período de 20 anos.

Como mentor dessa corrida desenfreada de israelenses para obter licenças rápidas está o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, defensor da flexibilização das regras muito antes do atentado de 7 de outubro. Depois da entrada de centenas de terroristas pela fronteira de Gaza, ele se valeu das falhas de segurança do governo que deixaram israelenses vulneráveis para concretizar suas propostas. Anunciou a compra de dez mil rifles para armar a população, especialmente os colonos de assentamentos — grupo do qual ele faz parte.

“Arme-se e salve vidas” é o slogan repetido por Ben-Gvir, da coligação de extrema direita Sionismo Religioso, que garante a sobrevivência política do premiê Netanyahu à frente do governo. Sua carreira política se resume, sobretudo, à propagação do discurso de ódio contra árabes, à defesa de novos assentamentos ilegais e à proteção dos colonos judeus.

Como considerou o escritor Odeh Bisharat, em sua coluna no jornal “Haaretz”, o ministro de Segurança Nacional está em estado de êxtase porque o governo lhe deu todo o que queria para combater o seu primeiro alvo, os cidadãos árabes de Israel.

“Milícias subordinadas a ele surgiram como cogumelos, equipadas com armas de fogo”, observou o colunista. “Não apenas o sangue de seres humanos é derramado, como também o sangue da democracia israelense – ou o que resta dela. Ao seu redor, um bando enlouquecido dança alegremente.”

O próprio Ben-Gvir comandou a distribuição de armas, assim como capacetes e coletes, em assentamentos e aldeias. A guerra em Gaza desencadeou o aumento de violência na Cisjordânia, alimentada pelos colonos de extrema direita respaldados pelo ministro. Outra autoridade ultradireitista, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, incentiva colonos a impedirem a colheita de azeitonas, uma das fontes de subsistência dos palestinos no território.

Os esquadrões, compostos por grupos de civis, residentes de aldeias ou kibutzim, já atuavam nesses locais, mas, desde o massacre do Hamas, por ordem do ministro, se multiplicaram. Ben-Gvir propôs a criação de mais 600 “equipes de segurança” para dar uma resposta rápida a futuros ataques, antes da chegada da polícia.

“Vamos virar o mundo de cabeça para baixo para que as cidades sejam protegidas. Dei instruções para armar massivamente as equipes de segurança e não deixar as cidades desprotegidas”, justificou. Traduza-se por proteção a expulsão de palestinos de suas casas e aldeias, que vem se intensificando no último mês.

Para integrar os esquadrões, é preciso que seus integrantes tenham cumprido o serviço militar — requisito preenchido pela maioria da população israelense. Com a função de milícias privadas, essas novas unidades atuariam em regiões onde residem palestinos e colonos judeus, que registram confrontos frequentes.

O problema é que, assim como a distribuição de armas, a formação dessas equipes não dispõe de supervisão ou treinamento. Os críticos temem, com razão, que a proliferação dos esquadrões e o armamento indiscriminado da população perpetuam o ciclo de violência nos territórios ocupados e abrem, sob as vistas do governo, uma nova frente de guerra com os palestinos.