1982: o ano que marca o registro, no papel, de histórias que já estavam sendo escritas há 71 anos. No dia que se comemora o aniversário de instalação do estado de Rondônia, 4 de janeiro, o g1 apresenta famílias que ajudaram na construção dessa história.

Da imigração dos afro-caribenhos, chamados de barbadianos, nascem três histórias que, no presente, atravessam os limites dos livros e se contam sozinhas. Três mulheres que acompanharam a "gestação" de Rondônia e contribuíram na educação e no desenvolvimento da região.

Trabalho, suor e sangue de barbadianos, que vieram para construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), ajudaram a delimitar no mapa e registrar, no dia 4 de janeiro de 1982, Rondônia como uma Unidade Federativa.

Das primeiras gerações vindas da diáspora Afro-caribenha às regiões amazônicas, Ursula Maloney, Eunice Johnson e Elsie Shockness colecionam memórias de vidas vividas em uma só. Atravessando Rondônia de ponta a ponta, as três contam suas narrativas individuais e coletivas, fixadas na memória de rondonienses que compartilham das mesmas lembranças. Confira:

A professora de professores: Úrsula Maloney

Úrsula Maloney — Foto: g1 Rondônia

Descendente de Barbadianos, Úrsula nasceu em Porto Velho em 1936. Seu pai foi o primeiro profissional hidráulico a trabalhar nas Três Caixas D’água, em Porto Velho.

“O trem tinha sede de vapor, a água era essencial para manter a locomotiva rodando. O meu pai era responsável por instalar os pontos de bombeamento de água, não só para atender o trem, mas para vários municípios além da capital”, relembra.

As lembranças que ajudam a materializar a figura da mãe de Úrsula, apresenta uma mulher que criava os filhos lavando e passando as roupas que não eram suas.

“Era lavadeira. Vontade não lhe faltou, mas não teve a sorte de estudar, mas exigia a educação de mim e dos meus irmãos”

O sonho de Úrsula era se formar em direito. Durante a infância e juventude em que estudou no colégio Carmela Dutra, andou de mãos dadas com esse desejo. No entanto, o limite criado pelo dinheiro que ela não tinha, forçava o desencontro entre as mãos de Úrsula e de seu sonho.

Um dia, ajudando a sua mãe a lavar as roupas na beira do rio, Úrsula ouviu ela dizer que não poderia ajudar a filha a se formar no curso que mais queria, pois suas condições financeiras não lhe davam esperanças. Ao invés disso, a menina teria que estudar, trabalhar na cidade e ajudar na criação dos irmãos mais novos, pois as forças para o trabalho braçal da mãe estavam chegando ao fim.

À beira do rio, com peças de roupas ensaboadas e as lágrimas se misturando com as águas, Úrsula afogou o sonho que sempre o acompanhava de mãos dadas. Um sonho que, para época, era irrealizável.

“Éramos sete, mas contando com os outros filhos de outras famílias que minha mãe criou, quando morreu, deixou uma saudade em 15 corações”.

A possibilidade de uma outra profissão veio somente quando Úrsula iniciou o curso de magistério. Logo depois, ela começou dar aula para crianças do ensino infantil. A certeza que queria seguir na vida de professora veio depois da formação de sua primeira turma.

36 alunos com idades entre sete e oito anos foram receberam os primeiros ensinamentos dados pela professora. Depois de virar noites montando atividades criativas e aulas práticas por um ano, Úrsula conseguiu aprovar 33 estudantes. Quando olhou para a turma repleta de felicidade, pensou consigo: “eu acho que eu sirvo para essa coisa de ensinar,”.

Frente à educação de Rondônia, Úrsula atravessou o estado “amassando barro” e empurrando carro com suas próprias mãos. Viajava inspecionando as atividade nas escolas do interior.

O olhar no presente intercala com a visão do passado e, ao comparar a passagem do tempo, a mudança mais notável, segundo ela, é o asfalto grosso que hoje cobre as estradas de chão lamacentas onde ela se atolou diversas vezes percorrendo os municípios para levar educação.

Ao assumir o cargo de supervisora, um leque de conhecimentos regionais era necessário para ajudar os novos professores que chegavam para trabalhar nos municípios. Foi assim que ela se tornou professora de professores.

“Vieram muitos professores de fora e isso ampliou a educação nos municípios e distritos ao longo da BR. A maior dificuldade do início era a ausência de intimidade com Rondônia, pois eles não eram daqui. Viajávamos por todo o estado levando material escolar, merenda para as crianças e, principalmente, informações sobre a nossa região. Orientei todos os profissionais novos que chegavam”.

Úrsula é conhecida por suas aulas práticas: sempre levava seus alunos para os pontos mais importantes da região, pois achava que a proximidade das crianças com os "lugares vivos" que fizeram parte da sua história, ajudava a criar uma intimidade maior com o legado que os pertenciam.

A professora que um dia assumiu a responsabilidade de esculpir mentes e formar vidas que hoje andam pelas ruas de Porto Velho, segue viva e orgulhosa da participação que teve na formação da educação em Rondônia.

Eunice Johnson

Eunice Johnson — Foto: g1 Rondônia

Em 1943 nasceu, nas barrancas do Rio Madeira, a professora de filosofia Eunice Johnson, uma das primeiras a integrar a equipe docentes da Universidade Federal de Rondônia (Unir).

Ela era filha de Norman Johnson (mais conhecido como Mr. Johnson), o profissional responsável pela instalação, funcionamento e manutenção das linhas telefônicas de Porto Velho quando a Estrada de Ferro Madeira Mamoré ainda funcionava.

Visto por muitos olhos como uma personalidade importante da época, o pai de Eunic estava sempre cercado de pessoas que o admiravam.

Eunice cresceu traduzindo o mundo sob duas perspectivas: o inglês que era falado em casa brigava com o português das ruas. De suas memórias, a lembrança pescada revela duas infâncias: parte vivida em um lugar chamado “Alto do Bode” (que ironicamente, segundo ela, não havia um bode sequer) e parte no centro da cidade, em uma casa onde a luz nunca ia embora, graças a engenhosidade do pai que também fabricava baterias.

Sempre unida com a família, Eunice cresceu recebendo muito apoio do pai para realizar seus sonhos e por incentivo dele, que dava prioridade para a ensino dos filhos, ela contribuiu por anos para a educação de Rondônia.

Os Jonhson, junto com missionários vindos da Suécia, também fundaram a primeira Igreja Batista de Porto Velho: um legado que Eunice administra até hoje. São muitas as lembranças de viagens que fazia com a família, promovendo os acampamentos religiosos e conhecendo todo o Estado.

Instigada a escolher uma lembrança boa e ruim que guarda consigo, seleciona apenas uma, que segundo ela, é uma mistura de boa e ruim:

“Por mexer muito com pólvora e sempre andar acompanhado de muitas pessoas, meu pai foi investigado pelas autoridades da época. As suspeitas? Que ele poderia estar produzindo bombas”.

A voz do passado relata no presente o dia em que uma carro de polícia foi até a casa dos Johnson e levaram Norman para que ele pudesse “prestar esclarecimentos” na delegacia.

“Lembro que foi triste ver meu pai entrando naquele carro, mas me marcou o momento em que todos os vizinhos e amigos dele, na época, correram atrás da viatura para prestar apoio e questionar sua prisão desnecessária”.

No fim, Mr. Johnson saiu pela porta da frente e seguiu para casa acompanhado.

No retrato de Porto Velho, os olhos de Eunice enxergam sua família eternizada no trem no marrom avermelhado: a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

"Já em mim, Porto Velho está fixado na minha alma".

Elsie Shockness

Elsie Shockness — Foto: Elsie Shockness

De sangue caribenho, Elsie Shockness nasceu em 1961 e cresceu junto com a cidade de Porto Velho. Suas origens estão intrinsecamente ligadas com o desenvolvimento do berço da capital.

Filha da terceira geração dos Shockness, o avô era carpinteiro das áreas em que se estendiam os trilhos de ferro por onde o trem percorria. O pai abdicou da infância e trabalhou na EFMM quando ainda era criança.

A menina do passado formou uma psicóloga que hoje luta em prol da igualdade racial. Elsie é reconhecida como uma voz importante para o empoderamento feminino e negro de Rondônia.

Filha de professora, Elsie passou parte da vida na capital e parte em Guajará-Mirim (RO), município há 200 km de Porto Velho. Os deslocamentos fizeram parte de sua infância.

“Diretamente ligada com o desenvolvimento da educação no Estado, minha mãe lecionou em uma das primeiras escolas públicas da capital e também em escolas da zona rural de Rondônia”

Das viagens de trem acompanhada da mãe, as lembranças são dos doces preferidos, degustados com o vento de trem batendo no rosto: o sabor de infância.

Outro marco de sua memória de Elsie foi quando os olhos viram, sob a iluminação do dia, a cantora Elis Regina.

“Ela saiu do carro, cruzou a Avenida Carlos Gomes e andou em direção ao Bancrevea Clube para uma apresentação musical. Sentados em cadeiras postas em frente das casas, eu e a vizinhança escutamos toda a apresentação”.

Das alegrias simples de uma vida, Elsie relembra de um momento triste: a desativação da Estrada de Ferro, em 1972. Até que um dia...

“Depois de muito tempo parado, um dia o trem apitou. O barulho ecoou por toda a cidade. As pessoas correram de suas casas com as roupas simples que usavam e entraram no trem. Os olhos delas estavam inundados de emoção”.

Segundo Elsie, uma sensação triste a toma quando pensa no pai, ainda em vida, vendo o trem parado. Em seus desejos mais profundos, está o retorno do apito e o vento do trem em movimento soprando em seu rosto.

*Estagiário sob supervisão de Jaíne Quele Cruz