Os primeiros resultados da tese de doutorado da historiadora e arqueóloga Valdirene Ambiel foram divulgados em 2023, sob orientação do professor Carlos Augusto Pasqualucci. Os estudos se aprofundaram nos “pacientes”, nas doenças que tinham e nos tratamentos feitos até a morte.

Ao g1, a arqueóloga ressaltou que as três ossadas passaram por uma bateria de exames, como tomografias, que revelaram doenças ósseas e calcificação por traumas. Imagens em 3D das arcadas dentárias e das ossadas ajudaram também a desmentir lendas urbanas, como a causa da morte da imperatriz Leopoldina e o suposto nariz quebrado de Dom Pedro I.

Dentes de Dom Pedro I; à direita, dente tratado e com ouro, possivelmente, segundo historiadora — Foto: Reprodução - Valter D. Muniz/Arquivo

Dentes de Dom Pedro I; à direita, dente tratado e com ouro, possivelmente, segundo historiadora — Foto: Reprodução - Valter D. Muniz/Arquivo

Recriação de rostos

Recriar o rosto do imperador e das esposas foi possível a partir de 20 mil imagens feitas com os restos mortais, além de referências em pinturas. O g1 obteve imagens em 3D de simulações da dentição (veja abaixo).

“O estudo odontológico deu uma pequena ideia de como era a saúde bucal no início do século XIX. Os dados levantados pelos odontos contribuíram na interpretação de determinados problemas de saúde que eles apresentaram, além de auxiliar no contexto das expressões identificadas pela antropometria [estudo das medidas do corpo] na etapa de aproximação facial”, disse Valdirene.

O dentista André Kerber, um dos profissionais que analisaram a arcada de Dom Pedro, detalha que foram encontrados desalinhamentos, cáries tratadas nos dentes posteriores, trauma nos dentes anteriores e evidências de hábitos de mastigação frequente por apenas um lado da boca.

A investigação da estrutura do crânio, segundo o especialista, revelou características associadas a hábitos de respiração bucal e que o imperador apresentava desvio de septo à esquerda, o que poderia causar desconforto respiratório, principalmente deitado, mas sem fraturas em vida.

Aproximação facial de Dom Pedro I, D. Leopoldina (primeira esposa) e D. Amélia (segunda esposa); obra para tese de doutorado de Valdirene Ambiel — Foto: Rodrigo Avila/Reprodução

“Desequilíbrios na distribuição da pressão sobre os dentes, levando a fraturas e perda óssea. [Dados] sugerem que possuía sintomas de disfunção temporomandibular [problemas nas articulações que ligam o maxilar] devido aos hábitos de mastigação unilateral, resultando em estalos, dores musculares e outros desconfortos. A falta de adequada distribuição de pressão durante a mastigação também contribuiu para problemas dentários como fraturas e perda óssea.”

O imperador tinha feito tratamento contra cárie e tinha praticamente todos os dentes. Deduziu-se que mantinha boa higiene oral, comia pouco carboidrato e tinha acesso a profissional de qualidade, por conta de duas restaurações em material metálico, provavelmente ouro.

Em tempos modernos, D. Pedro I precisaria fazer dois implantes dentários e usar aparelho nos dentes para melhorar o encaixe com a boca fechada.

“Tinha a ausência das unidades 36 e 46, primeiros molares inferiores. Seria necessário o uso de implantes para restabelecer uma oclusão correta. Além disso, evitar problemas como mesialização ou distalização [movimentação para direita ou esquerda dos dentes]. O imperador apresentava dentes girovertidos, apinhados e inclinados e mordida cruzada”, explica Kerber, que usou um programa específico para refazer o movimento e viu que alguns dos dentes se tocavam.

Tuberculose

Dom Pedro I do Brasil também era Dom Pedro IV de Portugal. A figura histórica morreu aos 35 anos e foi sepultada em 1834, em Portugal. A autópsia apontou a causa como tuberculose. Ele media entre 1,60m e 1,73m.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que aproximadamente 10,6 milhões de pessoas adoeceram de tuberculose em 2022. O Brasil apresenta um terço dos casos nas Américas. Em 2022, o país registrou 81 mil casos novos da doença e cerca de 5.800 mortes.

Ossada do imperador

Restos mortais de Dom Pedro I — Foto: Vitor H. Mori/Arquivo

A historiadora afirma que Dom Pedro I sofreu acidentes com cavalos em 1823 e 1829. As análises de tomografias feitas pelos médicos Marcelo Bordalo, Luiz Roberto Fontes e Sérgio José Zeri Nunes encontraram fraturas nas costelas antes da morte.

As marcas nos ossos são apontadas como, provavelmente, causadas pelas quedas, mas que não o levaram à morte.

Em 2012, o corpo estava totalmente no esqueleto, sem sinais de tecidos. No crânio, havia uma incisão que indicava a retirada do encéfalo durante a autópsia. Outras marcas nas costelas pós-morte podem ter sido feitas com lâmina para a retirada do coração.

Foi verificado um sinal de fratura no osso nasal esquerdo. No entanto, o estudo acredita que ocorreu depois da morte, durante exumação ou no transporte do imperador de Portugal para o Brasil, em 1972.

D. Leopoldina, primeira imperatriz do Brasil

Ossada de D. Leopoldina — Foto: Vitor H. Mori/Arquivo pessoal

Dona Leopoldina de Habsburgo-Lorena, a primeira esposa de D. Pedro I e imperatriz consorte do Brasil, morreu aos 29 anos, em 1826. Ela e o marido tiveram seis filhos, sendo um deles Dom Pedro II.

O corpo dela foi encontrado sem pele e apenas com a ossada. A vestimenta e objetos sepultados com ela foram recuperados. Tudo passou por exames de imagens. Assim como nos restos mortais do marido, as análises acabaram com outra “lenda” (entenda mais abaixo).

Os estudos nos dentes e no crânio revelaram uma série de problemas estruturais e dentários, comenta André Kerber.

“Foi observado que a imperatriz tinha ossos maxilares assimétricos, com uma mandíbula maior que a maxila devido a cruzamentos dentários que bloquearam o crescimento da maxila. O exame odontológico revelou diversos problemas, incluindo cáries, atrofia óssea e perda de dentes.”

Reprodução dos dentes de D. Leopoldina — Foto: Reprodução

A presença de muitos resíduos de raízes de dentes indicou um histórico de extrações, o que dificultou a análise funcional da mandíbula.

“A presença de restaurações dentárias indica acesso a tratamento odontológico, embora a saúde bucal da imperatriz fosse comprometida por inflamação e desconforto.”

Causa da morte

Não foram identificadas lesões nos ossos da imperatriz. A pesquisa descartou que ela teria quebrado o fêmur depois de ser supostamente empurrada escada abaixo pelo marido e morrido por infecção.

“Não há nem documento nem menção bibliográfica [sobre esta hipótese], trata-se de uma lenda urbana do Palácio da Quinta da Boa Vista, atual Museu Nacional”, explica a pesquisadora.

O estudo diz que nove dias antes de morrer, segundo boletins médicos no Museu Imperial de Petrópolis, Leopoldina sofreu um aborto espontâneo.

Em carta ao pai, dias antes da interrupção involuntária da gravidez, a imperatriz escreveu que teve por 12 dias febre e que não se sentia bem. Em 30 de novembro, houve piora no quadro, e o aborto aconteceu em 2 de dezembro. Em 11 de dezembro, ela não resistiu e morreu.

A pesquisa concluiu a causa da morte com a suspeita de septicemia puerperal, uma infecção pós-parto, depois de sangramento vaginal, febre e convulsões.

A pesquisadora Valdirene com o corpo de D. Leopoldina antes da decapagem arqueológica — Foto: Luiz Roberto Fontes/Arquivo

O casamento entre o príncipe herdeiro de Portugal e Leopoldina, a arquiduquesa da Áustria, em 1817, foi mais um dos chamados “negócios de Estado”, comentou Valdirene.

O casal se conheceu pessoalmente meses depois da cerimônia, quando Leopoldina chegou ao Rio de Janeiro, no início de novembro de 1817. Ela fez aulas de português antes de vir ao Brasil.

“A imperatriz teve que suportar amantes do marido, além de tantas outras ofensas públicas às quais D. Leopoldina foi submetida pelo marido. Acredito que foi um verdadeiro tormento para ela”, afirma a historiadora.

Quando chegou ao Brasil, a comitiva de Leopoldina contou com cientistas e deu início a uma das maiores missões científicas no país, a Missão Austríaca.

“Ela montou um laboratório de seleção de artefatos que seriam mandados para Europa. Preocupada com a formação destes profissionais no Brasil, recomendou que os relatórios fossem feitos em formas de duplicatas, onde uma cópia deveria permanecer no Brasil. O resultado desta pesquisa pode ser observado em várias obras. Leopoldina não teve uma formação científica acadêmica. Mas, sem dúvida alguma, ela foi uma das mulheres que mais contribuíram com a ciência brasileira”, destaca a historiadora.

A múmia de D. Amélia

Corpo de D. Amélia em São Paulo — Foto: Valter D. Muniz - Beatriz T. Monteiro/Arquivo

Dona Amélia de Leuchtenberg, a segunda esposa de D. Pedro, morreu aos 60 anos, quatro décadas depois do marido. Aos 17 anos, em 1829, Amélia, que era neta adotiva de Napoleão Bonaparte, aceitou o casamento com o imperador. Os dois tiveram uma filha e ficaram juntos até 1834.

Uma surpresa durante a pesquisa, em 2012, foi que o cadáver estava bem conservado, com grande parte dos tecidos moles, cílios, sobrancelhas e cabelo. Ela segurava um crucifixo e vestia roupas pretas.

Valdirene afirma que o resultado foi por conta do embalsamamento do corpo, da vedação e da falta de elementos essenciais para que não entrasse em decomposição, como o oxigênio.

Na boca da segunda esposa de Dom Pedro I foram encontrados apenas cinco dentes, tártaro e doença periodontal avançada — inflamação dos tecidos que suportam os dentes. Amélia perdeu quase todos os dentes cedo, muitos anos antes de morrer, indicaram os especialistas.

“A falta de dentes impactou negativamente na função mastigatória, o que pode ter afetado alimentação e nutrição. Com as perdas odontológicas, sua dieta abandonou o consumo de alimentos duros e ásperos, optando pelos mais elaborados e bem cozidos.”, complementa o dentista.

Corpo de D. Amélia — Foto: Beatriz T. Monteiro/Arquivo

Os exames apontaram que ela tinha escoliose e, provavelmente, os últimos anos de vida foram difíceis para locomoção e com fortes dores. As lesões na coluna seriam, atualmente, tratadas com fisioterapia, medicamentos ou até método cirúrgico, detalhou Valdirene. Contudo, na época, a imperatriz pode ter vivido os últimos anos acamada.

Ela também pode ter sofrido, conforme o estudo, de dores no peito desde 1834, época da morte do marido. Em 1871, ela apresentou lesões nos pulmões, bronquite e falta de ar, mas se recuperou, apesar do quadro grave.

No ano seguinte, sofreu sintomas de insuficiência cardíaca, que pode ter sido causada por doença arterial coronariana crônica, detalhou a conclusão do estudo. Na época, o boletim médico foi encaminhado com as informações para Dom Pedro II, em 24 de janeiro de 1873, dois dias antes da morte.

O documento também faz parte do museu em Petrópolis. Foi considerado que ela teve um colapso cardíaco aos 60 anos.