"Eu não bebo água há 50 anos... Eu não gosto de água, só Coca Cola Zero. Todos os médicos que eu vou me recomendam água, mas eu bati de frente com o meu cardiologista e o meu endocrinologista. Até meus remédios eu tomo com coca. Nada com água, nem uma gota", disse o aposentado ao g1.

Idoso internado avisa hospital que não bebe água, só refrigerante — Foto: Arquivo Pessoal

Internado no Hospital São Rafael, em Salvador, com Covid-19, ele posou para uma foto com seu refrigerante preferido. Roberto deixou ainda um aviso aos funcionários da unidade de saúde: "Não bebo água, só Coca-Zero".

Mas a prática é contraindicada por médicos. Profissionais de três especialidades ouvidos pelo g1 destacaram os danos que a troca pode provocar para o coração e para o metabolismo.

Hipertensão e outros problemas de saúde

Segundo especialistas, refrigerante não pode substituir água — Foto: Mmrsiraphol/Freepik

"Refrigerante tem sódio, que acaba retendo líquido no nosso organismo. Isso não é bom", adiantou a cardiologista Rica Buchler, diretora dos Serviços de Reabilitação Cardiovascular e Cardiologia do Esporte do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, e co-coordenadora de ergometria e métodos gráficos na Dasa.

Um copo do refrigerante preferido do aposentado baiano Roberto Pedreira tem 28 mg de sódio. A médica explica que o problema do excesso desse ingrediente é o mesmo da cafeína: a propensão de aumento da pressão arterial. Esse aumento pode favorecer quadros de hipertensão, além de trazer riscos à saúde de pessoas que já são hipertensas.

"A cafeína acelera os batimentos cardíacos. Falando de uma maneira genérica, tira sono se tomado à noite e pode aumentar a pressão arterial. Como a gente vive em um país em que as pessoas só tratam o problema quando elas sentem alguma coisa, esse hábito de vida é totalmente danoso", avaliou a cardiologista.

Consumo exagerado de refrigerante pode causar problemas de pressão arterial. — Foto: Reprodução/Bom Dia Brasil

Além do risco de hipertensão, outros problemas de saúde têm relação com o consumo exagerado de refrigerantes. Segundo o médico gastroenterologista e especialista em clínica médica, Eduardo Marques, a bebida pode causar desde sensação de inchaço, até casos de refluxo. Confira problemas associados:

  • sensação de desconforto abdominal;
  • piora do refluxo gastresofágico;
  • piora da sensação de inchaço, estufamento e sintomas associados aos gases abdominais;
  • favorecimento da erosão do esmalte dentário;
  • desregulação metabólica;
  • aumento do desejo por alimentos doces.

"Sem açúcar" não significa "saudável"

Um latinha da Coca-Cola tradicional tem 37g de açúcar. Apesar do refrigerante zero não ter o ingrediente, o médico Bruno César da Silva, gastroenterologista do Hospital da Bahia, em Salvador, afirma que isso não é sinônimo de "saudável".

A explicação é que os refrigerantes sem açúcar contém adoçantes, ingredientes que também são associados a problemas de saúde.

"Estudos indicam que adoçantes artificiais podem contribuir para o desenvolvimento de condições como a síndrome do intestino irritável e promover um estado pró-inflamatório no intestino, além de potencialmente afetar a regulação da glicose", afirmou.

Além disso, a nutricionista Cristina Menezes, especializada em nutrição clínica, esportiva e em modulação intestinal, afirmou que não há benefícios comprovados sobre a troca do açúcar pelos adoçantes.

"O uso de adoçantes não oferece nenhum benefício a longo prazo na redução de gordura corporal em adultos ou crianças, isso de acordo com uma revisão sistemática das evidências disponíveis feita pela OMS", disse.

Água é insubstituível

Durante seca no DF, especialistas recomendam beber muita água. — Foto: Agência Brasília/Divulgação

Não é exagero dizer que água é essencial para o corpo humano. Como reforça a cardiologista Rica Buchler, o ser humano precisa se manter hidratado para o bom funcionamento do corpo, em especial para as funções renal e cerebral.

A recomendação sobre quantos litros ingerir por dia pode variar, considerando peso e altura de cada indivíduo, além de características do clima onde a pessoa está inserida.

"Por exemplo, uma pessoa acima de 65 anos precisa de mais líquido. Uma pessoa que está em Salvador, por exemplo, andando na praia com calor de 30º precisa de muito mais líquido para manter seu metabolismo", ressalta a médica.

O consumo de água também está diretamente ligado a digestão. Segundo o gastroenterologista Eduardo Marques, a absorção de nutrientes, por exemplo, só ocorre de forma eficiente quando a pessoa está hidratada. Quem bebe pouca água, pode desenvolver úlceras e quadros de gastrite.

"A desidratação inclusive pode favorecer a formação de úlceras pépticas gástricas e duodenais, pois com a pouca ingestão de água, pode haver uma diminuição na produção de muco, que é uma barreira para agressão da acidez do suco gástrico", afirmou.

Dessa forma, nenhuma bebida pode substituir a água, nem mesmo os refrigerantes "zero açúcar". O consumo baixo água pode influenciar o mau funcionamento de diversas funções do corpo e causar danos irreversíveis a longo prazo.