Com nível do lago Guaíba acima da cota de inundação, comerciantes aguardam normalização para reabrir as portas

Porto Velho, RO - O desânimo era visível no semblante de Deoclécio Rissi, sócio de uma das mais tradicionais churrascarias de Porto Alegre, localizada na avenida Praia de Belas. Invadido em 1,6 metro pelas enchentes, o restaurante tinha retomado as entregas neste domingo (2) e a reabertura presencial seria nesta segunda-feira (3), após trinta dias fechado. "Cheguei aqui hoje pela manhã e me deparei com água pelas canelas", conta.

Elevada em relação à rua, a churrascaria mantinha-se limpa e as 130 mesas e 120 cadeiras recém-compradas ficaram intactas. No entanto, o acesso de clientes ficou impossibilitado.

Mais de 30 funcionários saíram de suas casas pela manhã, mas não puderam trabalhar. "A gente fica impotente porque não tem o que fazer. Uma indignação muito grande. Você se prepara para trabalhar, um monte de funcionários parados, chegaram aqui e não têm o que fazer", lamenta Rissi.

A imagem mostra uma área urbana inundada, com águas barrentas subindo até a metade de uma grade de metal que delimita um espaço externo. Ao fundo, um edifício com paredes na cor rosa é parcialmente visível, sugerindo que a enchente atingiu várias estruturas na regiãoA imagem mostra uma área urbana inundada, com águas barrentas subindo até a metade de uma grade de metal que delimita um espaço externo.

Ao fundo, um edifício com paredes na cor rosa é parcialmente visível, sugerindo que a enchente atingiu várias estruturas na região.

Deoclécio Rissi planejava reabrir sua churrascaria nesta segunda-feira (3), mas a avenida Praia de Belas, em Porto Alegre (RS), voltou a inundar e adiou seus planos - Felipe Prestes/Folhapress
De acordo com o empresário, um segurança que trabalha no local relatou que por volta das 3h da manhã a água voltou a subir nas imediações do restaurante. Às 10h22, o prefeito Sebastião Melo comunicou em uma rede social que a Estação de Bombeamento de Águas Pluviais (Ebap) 16, localizada no bairro Praia de Belas, havia sido desligada para que a concessionária de energia CEEE Equatorial realizasse manutenção emergencial.

Segundo o prefeito, geradores seriam trazidos e a casa de bombas voltaria a funcionar. Às 12h53, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) informou que dois dos três motores da estação voltaram a funcionar. Na tarde desta segunda-feira, foi possível ver o nível da água baixar após as bombas voltarem a funcionar.

Moradores e comerciantes da região relatam que desde que conseguiram acessar novamente o local, no dia 17 de maio, já houve duas novas inundações, além da que ocorreu nesta segunda-feira. A primeira ocorreu no dia 22 de maio, quando uma forte chuva alagou vários bairros da capital gaúcha. Na ocasião, a Ebap 16 também foi desligada. Na semana passada, o nível das poças que ainda persistiam na região aumentou e, na quarta-feira (29), um vídeo de garças predando peixes em plena avenida Praia de Belas viralizou.

Os novos episódios não causaram o mesmo estrago da grande enchente da primeira quinzena de maio —a água não chegou a entrar novamente em grande parte do comércio e das residências—, mas assustam e atrapalham a retomada do cotidiano.

Proprietária de uma loja de moda feminina, Letícia Uebel conta que, embora o local precise passar por uma reforma, as novas inundações também pesaram na decisão de alugar um espaço provisório próximo dali, mas em lugar não afetado pelas enchentes. "A gente começou a limpar tudo, colocar tudo o que foi perdido fora e a água já avançou umas três vezes, ameaçou entrar de novo. Então a gente alugou um espaço provisório para remontar a loja temporariamente, até que a gente tenha segurança de voltar. A gente está inseguro desta volta, até porque fica difícil o acesso dos clientes, o cheiro também está muito forte".

O bairro Praia de Belas é sede de importantes prédios públicos. Uma das esquinas que alagaram nesta segunda-feira e tiveram o trânsito bloqueado —entre as avenidas Borges de Medeiros e Aureliano Figueiredo Pinto— reúne as sedes do Tribunal de Justiça e do Instituto de Previdência do estado. Próximo dali também estão o Ministério Público do Rio Grande do Sul e o centro administrativo do governo do estado.

Marido e sócio de Letícia, César Rufino avalia que a retomada integral dessas repartições também é fundamental para o comércio da região. "A gente trabalha muito com o funcionalismo público. Isso também vai impactar no nosso retorno. Não adianta voltarmos agora e não ter público".

Enquanto a loja de Letícia e César só ficou com água na calçada nas novas inundações, um prédio na mesma quadra não teve a mesma sorte. Toda vez que a água sobe, entra no térreo. Rosa Maria Fonseca, síndica do edifício, realizava nova limpeza na tarde desta segunda.

"Nas três vezes entrou água no prédio. Tudo limpinho, sujou de novo. As portas incham e não fecham mais. Nosso dilema é esse: vem água, limpa, vem água, limpa, até que um dia se resolva. Quando chove a gente fica apreensivo. É terrível".

Kauam Dorneles, sócio de um pequeno restaurante, não conseguiu ainda reabrir o negócio. Na manhã desta segunda-feira, o trabalho de limpeza foi prejudicado. "Um amigo passou por aqui e mandou fotos das ruas alagadas, então só vim à tarde".

Pintando as paredes do salão de beleza do qual é proprietária há 23 anos, Odete Oliveira conta que pretende reabrir nesta terça (4), mas está apreensiva. "A gente fica com medo, estamos há quase 40 dias sem trabalhar. Perdi 90% do meu negócio. Hoje estou vivendo de ajuda das pessoas, existem muitas pessoas solidárias. Pretendo recomeçar amanhã, mas será que as clientes vão vir?", questiona.

De acordo com o DMAE, após a Ebap 16 voltar a funcionar, 6 das 23 estações de bombeamento de Porto Alegre estão fora de operação. Nesta segunda-feira, o nível do Guaíba voltou a subir devido ao vento sul, que represou o escoamento das águas.

Pela manhã, o nível chegou a 3,86 m na Usina do Gasômetro. A cota de inundação no local é de 3,60 m. À tarde, em nova medição, o nível baixou para 3,63 m. No último sábado (1º), o nível do lago havia, pela primeira vez em um mês, ficado abaixo da cota de inundação.

Fonte: Folha de São Paulo