Líder do partido de extrema-direita holandês PVV, Geert Wilders, durante reunião com membros de seu partido no Parlamento da Holanda em Haia — Foto: Yves Herman/ Reuters
1 de 1 Líder do partido de extrema-direita holandês PVV, Geert Wilders, durante reunião com membros de seu partido no Parlamento da Holanda em Haia — Foto: Yves Herman/ Reuters

Superando todas as previsões, o PVV conquistou 37 dos 150 assentos parlamentares, bem à frente dos 25 da chapa liderada pelos trabalhistas e dos 24 do Partido Popular pela Liberdade e Democracia (VVD), do primeiro-ministro que está deixando o cargo, Mark Rutte.

"A era Rutte termina com uma revolta populista de direita que abala (Haia) até seus alicerces", disse o jornal holandês NRC.

Uma coalizão entre o PVV, o VVD e o partido centrista NSC teriam 81 assentos combinados, sendo a combinação mais óbvia, mas que ainda deve levar meses de negociações difíceis.

Nenhum dos partidos com os quais Wilders poderia formar um governo compartilha de suas ideias anti-UE.

"Estou confiante de que podemos chegar a um acordo", disse ele em seu discurso de vitória na noite de quarta-feira. "Queremos governar e nós governaremos."

Eleições

A vitória de Wilders envia um alerta aos principais partidos da Europa antes das eleições para o Parlamento Europeu em junho do próximo ano, que provavelmente serão disputadas em torno das mesmas questões da eleição holandesa: imigração, custo de vida e mudanças climáticas.

Wilders disse várias vezes que a Holanda deveria parar de fornecer armas à Ucrânia, pois, segundo ele, seu próprio país precisa das armas para poder se defender.

"Teremos que encontrar maneiras de estar à altura das esperanças de nossos eleitores, para colocar os holandeses de volta como o número 1", disse Wilders.

Após sua vitória, ele afirmou que "a Holanda voltará a ser dos holandeses, o tsunami de asilo e a imigração serão contidos".

Repercussão entre políticos e organizações

A União Europeia recebeu a vitória da extrema direita na Holanda com receio, já que o PVV prometeu um referendo sobre a permanência do país no bloco. Mas entre outras lideranças da ultradireita europeia, o resultado da eleição holandesa foi celebrado.

Na França, a presidente do partido Reunião Nacional, Marine Le Pen, parabenizou nesta manhã o seu “aliado” Geert Wilders e o PVV, pelo “seu desempenho espetacular” nas eleições legislativas holandesas. Para ela, a vitória "confirma o crescente apego à defesa das identidades nacionais”.

Em entrevista à emissora France Inter, Marine Le Pen acrescentou que a vitória “demonstra que cada vez mais países da União Europeia contestam o seu funcionamento e desejam controlar a imigração, considerada por muitas pessoas como massiva e anárquica”.

Na Hungria, o primeiro-ministro nacionalista, Viktor Orbán, também celebrou a vitória e comemorou os "ventos de mudança" na Holanda.

Na Itália, Matteo Salvini, da Liga, falou em desempenho "extraordinário" do holandês e afirmou que "uma nova Europa é possível".

Organizações islâmicas e marroquinas expressaram preocupação com a vitória de Wilders. Os muçulmanos representam cerca de 5% da população da Holanda.

Virada nas urnas

Inicialmente, a preferência dos eleitores apontava para um novo partido recém-formado, o populista NSC – Partido do Novo Contrato Social. Em menos de três semanas, antes da eleição, o índice de filiação à nova sigla se multiplicou e o seu líder, Pieter Omtzigt, já era apontado como o potencial primeiro-ministro. Na eleição desta quarta, no entanto, o partido acabou ficando em quarto lugar.

Segundo o instituto de pesquisas Ipsos, 39% dos eleitores holandeses queriam, desta vez, um governo de direita. Mas a vitória eleitoral de Wilders, apelidado de "Trump neerlandês", não garante que ele conseguirá reunir o apoio necessário para formar uma coalizão ampla o suficiente para viabilizar um governo.

O gabinete, segundo os analistas políticos, envolverá de três a cinco partidos, nas negociações preliminares. Partidos nanicos já confirmaram seu apoio incondicional ao PVV.

O PVV "já não pode mais ser ignorado", declarou Wilders diante de seus apoiadores eufóricos em Haia. "Convoco os partidos (...) Agora temos que buscar acordos entre nós. Os holandeses esperam que o povo possa recuperar seu país e que possamos garantir que o tsunami de solicitantes de asilo e imigração se reduza", acrescentou.

Formação do governo será desafio

O cenário político será complicado, segundo o cientista político Tom van de Meer, porque outros partidos de direita, de centro, de esquerda e liberais já afirmaram que não admitem governar com Geert Wilders. Pieter Omtzigt, do Partido do Novo Contrato Social, disse estar "disponível" agora, mas alertou que a negociação "não será fácil".

Na votação desta quarta, o segundo lugar ficou com a aliança PvDA, formada pelo partidos Verde e Trabalhista, com 25 lugares. O terceiro colocado foi o Partido Popular Liberdade e Democracia (VVD) do ex-primeiro-ministro Mark Rutte, com 24 assentos.

Este ano, 26 partidos concorreram e 17 deles já estavam representados na segunda Câmara do Parlamento, composta por 150 parlamentares. Uma outra surpresa desta eleição foi o encolhimento do partido de tendência liberal de esquerda D66 (Partido da Democracia 66), que fazia parte da atual coalizão governista. De 24 deputados, o D66 terá agora apenas 10 cadeiras.

Com informações da RFI.