No episódio, soldados israelenses abriram fogo contra uma multidão que cercava um comboio de caminhões com itens de ajuda humanitária, como alimentos, na Cidade de Gaza, no norte do território palestino.

Segundo o governo de Gaza, controlado pelo Hamas, os tiros atingiram centenas de pessoas e mataram 112 delas, todas civis. Já o Exército de Israel alegou, apenas no fim da noite de quinta-feira, que um grupo pequeno, de cerca de dez pessoas, foi atingido. Mas não negou que houve disparos.

Israel também divulgou um vídeo com imagens captadas por helicópteros que acompanhavam o comboio e que gerou ainda mais polêmica. As imagens mostram uma multidão correndo, tentando pegar alimentos e sendo rapidamente dispersada.

O episódio gerou uma onda de críticas da comunidade internacional às forças israelenses (leia mais abaixo) e mais pedidos por um cessar-fogo imediato - há uma proposta de trégua sendo negociada e que, segundo o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, deverá ser aprovada por ambas as partes na semana que vem.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, se disse "chocado" com o episódio, que o Hamas chamou de massacre de civis desesperados por comida - em relatório divulgado nesta sexta-feira (1º), a ONU disse que dez crianças já morreram de desnutrição e desidratação no território desde o início da guerra.

Veja, abaixo, o que diz cada lado e o que falta ser esclarecido sobre o caso:

Governo do Hamas

Pessoas transportam corpos em charretes após 104 morrerem durante confusão em distribuição de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, em 29 de fevereiro de 2024. — Foto: Reuters TV via Reuters

O governo da Faixa de Gaza, controlado pelo braço político do Hamas, afirmou que soldados israelenses abriram fogo indiscriminadamente contra a população da Cidade de Gaza que buscava alimentos em caminhões de ajuda humanitária que passavam pela cidade.

Segundo o Hamas, 112 pessoas morreram e mais de 600 ficaram feridas por conta dos tiros.

O governo local afirmou ainda que os disparos também foram feitos de tanques das Forças Armadas de Israel que estavam ao lado dos caminhões.

Exército de Israel

Logo após o caso vir à tona, as Forças Armadas de Israel alegaram que as vítimas morreram esmagadas ou pisoteadas na multidão, que cercou o comboio de ajuda humanitária. Em condição de anonimato, militares israelenses disseram à agência de notícias Reuters, à rede CNN Internacional e ao jornal "The New York Times" que soldados dispararam contra algumas pessoas e apenas se sentiram ameaçados pela multidão.

No fim da noite, no entanto, o porta-voz do Exército, Daniel Hagari, afirmou ter havido "disparos" por parte dos soldados. Mas negou que os tiros tenham sido um ataque à população.

Em pronunciamento, Hagari alegou que os soldados "cautelosamente tentaram dispersar a multidão com alguns tiros de advertência feitos para cima" após notaram que alguns deles "começaram a empurrar violentamente e pisotear outras pessoas até a morte, saqueando os itens de ajuda humanitária".

Segundo Hagari, o comboio era formado por 30 caminhões e transportava ajuda humanitária enviada por organizações internacionais e que havia entrado mais cedo em Gaza pela fronteira entre o território palestino e o Egito.

O porta-voz disse que o comboio estava no corredor humanitário aberto pelo governo israelense e seguiria pela via até o norte da Faixa de Gaza mas que foi cercado por cidadãos palestinos antes.

Sobre a presença de tanques ao redor dos caminhões, ele alegou que as Forças Armadas israelense vêm fazendo a proteção de caminhões de ajuda humanitária.

Reações

Após as imagens e as primeiras versões, a ONU e governos como os da França e da Alemanha pediram uma investigação detalhada sobre o caso.

Washington disse que havia solicitado informações para apurar o caso, e Israel disse que também vai investigar o episódio. Já a diretora da agência de desenvolvimento internacional dos EUA, Samantha Power, disse ao "The New York Times", criticou o fato de que as pessoas tenham morrido tentando buscar comida, independentemente do que causou especificamente a morte.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von de Leyen, se disse "profundamente perturbada" pelo episódio e pediu "transparência" e uma investigação profunda.

Nesta sexta, a rede de TV Al Jazeera também divulgou imagens que diz ter captado na noite de quinta-feira na Cidade de Gaza e que mostram tiros sendo disparados em meio a uma multidão.